OlhOs de espelho

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- Draco ; essa lombra aí ; revoltado com o sistema ;  oroboro ; Babilônia eu sei que vai cair ; 











Re-sync


JoAna D'(b)Arca e as fogueiras: um litro de álcool tubarão


Primeira vez que eu vi uma caieira, faz mil anos ou quantos?, foi lá na chácara e lembro como se fosse hoje.

Fiquei hipnotizada pelo miolo do foguedo iluminando muitos e muitos e muitos metros no pretume da noite. Medo e maravilha dançaram com labaredas e luz e sombra, desancorando minha alma.  

Meus olhos arregalaram de gratidão e espanto, feliz e triste chorei, e, pelo fogo, atravessei pro tempo sem tempo. Quando percebi já tinha destrambelhado a falar do que ainda vinha mas que ninguém mais adivinhava ou enxergava.

E, claro, foi totalmente traumatizante.

Soube sem querer saber que o amiguinho que também tava na festança, e que depois participaria da mesma deseducação e colégio, morreria de morte automatada anos depois e me apavorei. Muito.

(E alguém ensina como se age nessas horas??)

Que nessa época ainda não era ‘bem’ louca: era mais considerada como criança muito imaginativa e prolixa, chata talvez. (Ahãn, senta lá Claudia.)

Mas nem antes nem depois nem nunca alcançaram nem a borda da minha solidão e desespero. (Já perdoei: como poderiam saber se nem de si mesmos se deram conta?... Pois é.)

Tá que não era a primeira nem segunda nem terceira vez, mas bem pensei que poderia ser diferente. Investiguei  em enquete rápida o que fazer quando a gente ‘imagina’-sente algo ruim mesmo estando no meio da maior alegria, será mesmo que deus (em sua infinita sabedoria) realmente escondeu o inferno no meio do paraíso!?, ninguém entendeu ou explicou.

Depois disso, entre culpada amedrontada e sem remédio-recurso-solução (se não escolhia [?] ver, também não era por escolha que podia desver) piorei ainda mais as coisas, e lá pelas tantas tava cercada de gente velha e estranha rindo de arreganhar os dentes pra me engolir, e perguntando premonição benzimento amarração de destino.

Não foi a última vez.

(Inclusive algumas outras foram muito mais doloridas.)

Respondi tudo, triste e feliz chorei, e ainda avisei pra aproveitarem que já já eu fechava a tenda: levem meu sangue enquanto podem que na sequência tenho encontro marcado com a fogueira e aí acabou tudo. Como daquela vez que vocês mesmos me queimaram. Não lembram?, não se preocupem que eu não esqueci: bem lembro de muitos de vocês dançando em volta, ainda que com outras caras, olhos injetados de sangue e ódio e cegueira. Não amaldiçoei sua ignorância daquela vez e não será agora, que depois que eu esquecer de tudo, e me curar, torno a lembrar e essa autoimolação será mais uma estrela em meu brasão.

Ave Fênix, venho à tona de todos os naufrágios.

Hoje não sei dizer das cantorias nem das danças daquela noite, mas lembro do riso das pessoas girando e de sentir frio glacial enquanto os ventos uivantes da mátria tremiam meu corpo e minhas certezas mesmo a par da caieira. 

Mas, agora, de tudo o que mais lembro (e nunca esqueço) foi a cena mais fantástica de todas, talvez da vida: minha avó descalça atravessando o chão coberto de brasas acesas. E mais de uma vez.

Não vi nenhum homem entrar na roda, caminhar no fogo.

E disseram que eu era muito criança pra tentar...




* Tudo verdade. Foi e é e continuará sendo. 

* * O primeiro dever de uma sacerdotisa é falar a Verdade.

* * * A Mãe-do-Fogo embala eu.

* * * * 'A quem não é fátuo não é o fato que o fará.'

* * * * * 












Limite

Mário Peixoto; 1931.





Que na primeira vez que assisti 'de verdade' o Limite, não lembrei do cinemar, nem do tio Serpente, muito menos do Glauber, que disse certeiro assim:

Limite é 'revolucionariaula' de Montage pra tantos kyneaztas incompetentes.

E, pra mim, é isso mesmo e mais um tanto: uma necessária e única libertação poética experimental, um salva alma.

Depois, já na escola de cine, tive o privilégio de presenciar o José Carlos Avellar falando e ler suas considerações (especial não lançado e entregue em mãos) sobre o Limite, e isso foi tudo de lindo e especial. Na época espremi como pude as palavras pra assegurar a documentação das desmemórias mas só hoje, relendo-as, percebo quanto estava amarrada (mais que a moça da foto da Vu) e tão problemática quanto os personagens ilhados no bote sem remos. (Já ouviu falar de gaslighting?, pois foi. E da lei Maria da Penha?, pois foi também.) Quase pulei, no desespero, mas sobrevivi. Por isso, e por honestidade intelectual, o que sempre é muito significativo, colo os pensaventos exatamente do jeito que me saíram então, quando estava também eu, literalmente, 

À deriva  

Quando Afonso Segreto fez as primeiras imagens em terras tupiniquins a bordo do navio francês Brèsil, em 19 de junho de 1898, jamais imaginaria que, décadas depois, outras imagens sobre um barco e o mar fariam parte do filme-mito do cinema brasileiro. Exibido em 17 de maio de 1931 (e nunca comercialmente), Limite foi o único filme de Mário Peixoto, que tinha 20 anos quando o fez. Até ter a cópia única recuperada do mau estado de conservação na década de 70, era um filme mais comentado do que realmente assistido, o que só cresceu sua lenda. 

O filme começa com abutres pousados em uma rocha, à espreita, sinal que algo morreu ou está perto de. Então as mãos algemadas de um homem circundam o pescoço de uma mulher (1), Olga Breno, que olha direto para o espectador. De seus olhos se vai para um mar incendiado de luz e um pequeno barco, onde está com um homem (1), Raul Schnoor, e uma mulher (2), Taciana Rei, adormecida. Os remos estão parados, as roupas rotas e os cabelos despenteados. Dividem uma bolacha que ainda existe, o cansaço, o desânimo, a letargia do sol sem filtro, o mar que não se acaba no horizonte. 

Ao tempo modorrento do barco as lembranças vertiginosas dos personagens contrapõem e equilibram o ritmo da narrativa fragmentada, que mais sugere que revela. Em momento algum se descobre como os personagens acabaram no barco e se perderam. Nem se há realmente um barco, que pode ser a metáfora para um mar de significações. 

Os planos privilegiam os detalhes, pés que caminham, trilhos de trem, a meia desfiada da mulher 1, a mão do homem que gira dois pauzinhos. Desatada de grilhões, a câmera movimenta-se livremente e recorta ângulos incomuns, ora passeia por telhados, ora gruda no solo, plongèe, contra-plongèe, ao lado da mulher 2 observa do alto do penhasco a praia pequenina lá embaixo, sente uma vertigem que se insinua no plano que rodopia. 

Como em um poema visual, as imagens falam por si mesmas. A imagem é o que representa mas também o que não se vê, um sentimento. O mar é grande e sem saída, o barco é pequeno e começa a fazer água, os remos são inúteis. O homem desiste  e  prefere  se  lançar  ao  mar  a  continuar  com  a  espera,  as  mulheres também não possuem  esperança  suficiente para detê-lo, ele pula e somente bolhas  sobem  à  tona.  As  duas  mulheres  enfrentam  uma  tempestade,  o  mar quebra  violento  nos  rochedos  (sinal  que  a  praia  está  próxima?)  e  então  se acalma, e a música se altera.  

Alguém sobrevive. A mulher 1, bóia agarrada em um pedaço do que outrora fora o  barco.  Seu  olhar exausto  de  naufraga  encara  diretamente  a  câmera. Novamente brincando com o tempo, o filme retorna ao seu começo, ouroboros: a imagem dela presa no abraço de um homem com as mãos algemadas, o mar aceso, os abutres que levantam voo dessa vez.  

Singular na forma, ainda mais considerando que se trata de uma produção da década de 30, Limite é revolucionário na construção do sentido e principalmente do  sentir.  Com  uma  divisão  fílmica  do tempo-espaço  que  mais  nubla  que esclarece,  o  ritmo  e  a  beleza  das  imagens  mergulham  o espectador psicologicamente na história mesmo sem explicar muito sobre ela, sente-se. E basta. 

As paisagens  desfocam  e  se  embaralham,  como  o  próprio  sentido  e  a subjetividade das coisas à deriva do tempo e da mente: a vida e seu limite, a memória e o mar que não se acabam, o futuro sem bússola e sem rumo, fogo nos remos. Com suas metáforas e sua poética, Limite é ímpar na história cultural do país e na construção de suas imagens. O mar do tempo não lavou a força da história nem do olhar de Olga Breno, que acorrenta a atenção do espectador incauto  e  à  deriva  no  oceano  imagético  construído  por  Peixoto.  Com  ela  o espectador vem à tona da tempestade e do naufrágio e, novamente, fica à deriva do final que se aproxima e se suspeita mas que não se mostra.


Ps. Logo menos reescrevo tudo, com alma e coração, plena. Por agora, basta (re)assistir  e agradecer: é sempre um mergulho, sonho de criança que se realiza...












CineMar

Uma porta que se abriu de repente sobre o mar; um mar de fogo que rebrilha coruscante.

Idos da infância profunda, alto dos meus três pra quatro anos, já noveleira com horas de tele-visão e n quilômetros de caminhada pelas brechas do tempo. Minha primeira vez em Curitiba completamente acordada e mergulhando sem máscara no desconhecido angustiante da subjetividade (incompreendida) existencial, bem daquele jeitinho impossível de sempre.

Foi a primeira vez quando, que me lembre, participei de conversação sobre cinema e suas possibilidades. E ouvi falar do Limite.

Que lá na minha casa tinha pilhas de jornais, revistas, livros antigos e novos de esquisoteria, coleção de gibis de meu pai, bolas de vinis e muitíssimas outras coisas interessantes (depois conto dos animais empalhados...) mas, até então, nenhum filminho. Tudo girava basicamente sobre a escrita e, lógico (?), era por aí que eu suspeitava encontrar âncora e porto seguro.

(Quanta ingenuidade né?, mal sabia que escrever é [auto]devoração e mergulhar[-se] sem fim...)

Mas então o tio Serpente escancarou(-me) a janela, melhor: abriu uma porta sobre o mar.

Que foi ele que primeiro descortinou imaginagens diante do meu serzinho, contou os causos e me mostrou o trabalho de fotógrafos famosos (e também suas próprias fotos) que depois me fizeram re-olhar com amor multiplicado os álbuns antigos do avô (com todos aqueles tropeiros e descampados, lindeza pura), e compartilhou comigo seu amor pelo cinema. 

Desde aquele dia eu me soube pra sempre, e quis (mais uma vez) ser velha logo: aposentado e com os filhos já crescidos e fora da asa, ele transformou um dos quartos vazios em uma saleta de ver filmes. Foi onde assisti meu primeiro filme em preto e branco, quando por toda a Lei eu queria ir ver com meus próprios olhos o tal ‘cinema’ (como assim uma gigantesca tevê que não era tevê?!?...) mas não tinha idade pra isso. Tentei convencer que eu já era adulta e madura (diga lá: quantas viajantes do tempo você conhece?..., pois então!,...) e ele riu e tentou me consolar e iniciar nos arcanos maiores da cinematografia (era Glauber Rocha?, sim ou talvez?...). Já acostumada com o technicolor televisivo minhas vistas estranharam o preto e branco e minha cabeça cansou, e dormi antes do final, muito embora continue sonhando com isso até hoje.

Tio Serpente era organizado e amoroso com suas memórias fílmicas: fazia cadernetas recortando e colando ingressos-imagens-citações  e escrevendo com letra desenhada anotações dos filmes que assistia, pra lembrar ou pra não esquecer?, e isso também me marcou pra todo o sempre. Muitos anos depois, tio Serpente já tinha desencarnado, nas minhas explorações ao depósito encontrei uma das cadernetas. Surpreendida pela poesia das palavras e imagens, profundamente tocada mas sem entender direito do que se tratava, perguntei ao meu pai que que era aquilo, coisas do avô?! Não lembro exatamente o que ele respondeu, além de que eram sobre cinema, mas lembro de voltar pro depósito atravessada pela desmemória recuperada por inteiro, agradecida e triste, e de chorar sozinha, infinitamente sozinha e inconsolável naquilo que era o antes do começo do caminho e de toda essa verdade que aqui está agora (alguém ainda duvida? foda-se você [3x]: a questão é quando e porquê eu mesma duvidei, isso sim); com saudade do tio que ligava e sempre perguntava das minhas viagens no tempo. Lembrei tudo e sem entrar na água meu coração encolheu do tamanho de uma uva passa. Lembrei, pra logo depois esquecer tudo de novo e só assim conseguir continuar vivendo.

Pois foi. &,

Quando contei pro tio Serpente que um dia ia estudar cinema em Curitiba, com aquela veemência típica de criança viajante do tempo que ainda não aprendeu a ter medo e se autocensurar, ele respondeu amoroso e condescendente que era difícil, que em el cine tudo é caro (não existia o digital...), mas não impossível. Bastou-me: é com alegria que trabalho com o impossível, na Vida..., respondi. Levou muito tempo, (ParAná,) a escola de cine só começou a existir em 2005 e mesmo assim ainda tive de rolar muito até chegar, e ainda hoje-ontem sinto que não cheguei totalmente, pelo menos até agora, quando aceito que sempre estive.

Mas então, o que eu queria contar mesmo era que quando ouvi ele falar sobre o Limite, sua força e poética, suas lendas e a irreversibilidade do tempo que o corroeu e que nos corrói a cada segundo-frame, foi literalmente a tal sensação de tocar num fio desencapado: choque puro. A arte pela arte, o impossível realizado.

Então que hoje, 19/06, dia do cinema nacional (tem gente que considera 05 de novembro que foi quando, reza a lenda, aconteceu a primeira exibição cinematográfica pública do país, em 1896 no Rio de Janeiro, mas eu gosto do cabalístico 19) , não teve jeito de não matutar sobre.

O risco da realidade, o cotidiano fantástico que estraçalha todo ceticismo cartesiano, a narrativa esfacelada num redemoinho de vidas que (cine)mar nenhum comporta. O mergulho sem máscara. Filmes de mar, canções de amor. A Vida: mise en abyme, eternidade.


Brim Coringa

Desde sempre sonhava com o mar, gigantesco e profundo, assustador e bonito, repleto do que existe e não se vê a menos que se mergulhe.

Não sei quantos cadernos preenchi com desenhos de sereias e barcos e afins, comigo desde sempre uma vontade de sal que sentia latejar no meu sangue e que povoava todos os meus sonhos. Achava que era um tipo de herança vinda de meu pai, nascido em Antonina, e que tinha uma estrela do mar (coisas do vô...) guardada no armário.

Depois, ou antes, ou durante, quando pela primeira vez pensei sobre cinema tive a certeza absoluta (e reveladora de caminho novo) de que o cinema era um mar, e cada filme um mergulhar diferente. (Diz que para os antigos tudo nascia do mar, tanto o bem quanto o mal.)

Continuo a mesma: ainda acho.

Lá pelas tantas aquele desespero: não sabia nadar.

Além do mais, já tinha reparado que quando a gente fica muito tempo na água a pele se enruga como um maracujá de gaveta ou uma ameixa seca: apavorada, via a imaginagem do meu coraçãozinho assim enrugado e encolhido no meio de tanta água (aparentemente a escrita era montanha íngreme e difícil, porém firme e menos assustadora que balançar ao sabor das marés), e os escafandristas vindo procurar o resto de mim que os peixes não conseguiram devorar.

(Um pouco dessa sensação ainda persiste...)

Na já velha e saturada tática de esquecimento pra autopreservação, deixei esses pensaventos pra depois e segui nas incursões ao depósito e na devoração de revistas e gibis antigos. Foi quando vi a primeira propaganda do brim coringa:

Até que enfim!, o brim que não encolhe por mais que se molhe!

Fiquei doida com tanta tecnologia daquele tecido ‘feito pra durar uma vida toda’, e queria porque queria uma calça brim coringa (diz minha mãe que eu tinha uma calça azul e que era de brim, mas eu queria mesmo era o tal brim coringa... sabecomé essas coisas de publicidade na cachola das crianças né?...), mas parece que já nem existia mais, só jeans. E foi bem depois disso que eu li Adélia Prado e entendi que o que eu precisava mesmo era de um coração brim coringa: pra garantir mergulho sem hora e sem medo de encolhimento. (Sem esquecer de pedir-agradecer a proteção divina antes de entrar na água:)


O poder da Oração 

Em certas manhãs desrezo:
a vida humana é muito miserável.
Um pequeno desencaixe nos ossinhos
faz minha espinha doer.
Sinto necessidade de bradar a Deus.
Ele está escondido, mas responde curto:
‘brim coringa não encolhe’.
E eu entendo comprido
e comovente esforço da humanidade
que faz roupa nova para ir na festa,
o prato esmaltado onde ela ama comer,
um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.
A vida humana é muito miserável.
‘Brim coringa não encolhe’?
Meu coração também não.
Quando em certas manhãs desrezo
é por esquecimento,
só por desatenção.


Sozinha fui aprendendo a engolir o desespero: e se hoje ainda não sei nadar garanto que sei pelo menos não me afogar.  E calma e lenta sigo entrando nesse imenso mar cheio de estórias. Mas, por esquecimento ou desatenção?, parece que ainda faltava contar essas...