Primeira vez que eu vi
uma caieira, faz mil anos ou quantos?, foi lá na chácara e lembro como se fosse hoje.
Fiquei hipnotizada pelo miolo do
foguedo iluminando muitos e muitos e muitos metros no pretume da noite. Medo e maravilha dançaram com labaredas e luz e sombra, desancorando minha alma.
Meus
olhos arregalaram de gratidão e espanto, feliz e triste chorei, e, pelo fogo, atravessei pro tempo sem tempo. Quando percebi já tinha destrambelhado a falar
do que ainda vinha mas que ninguém mais adivinhava ou enxergava.
E, claro, foi totalmente traumatizante.
Soube sem querer saber
que o amiguinho que também tava na festança, e que depois participaria da mesma
deseducação e colégio, morreria de morte automatada anos depois e me apavorei.
Muito.
(E alguém ensina como se age nessas horas??)
Que nessa época ainda não
era ‘bem’ louca: era mais considerada como criança muito imaginativa e prolixa, chata talvez.
(Ahãn, senta lá Claudia.)
Mas nem antes nem depois nem nunca alcançaram nem a
borda da minha solidão e desespero. (Já perdoei: como poderiam saber se nem de
si mesmos se deram conta?... Pois é.)
Tá que não era a primeira nem
segunda nem terceira vez, mas bem pensei que poderia ser diferente. Investiguei em enquete rápida o
que fazer quando a gente ‘imagina’-sente algo ruim mesmo estando no meio da
maior alegria, será mesmo que deus (em sua infinita sabedoria) realmente escondeu o inferno no
meio do paraíso!?, ninguém entendeu ou explicou.
Depois disso, entre
culpada amedrontada e sem remédio-recurso-solução (se não escolhia [?] ver,
também não era por escolha que podia desver) piorei ainda mais as coisas, e
lá pelas tantas tava cercada de gente velha e estranha rindo de arreganhar os
dentes pra me engolir, e perguntando premonição benzimento amarração de
destino.
Não foi a última vez.
(Inclusive algumas
outras foram muito mais doloridas.)
Respondi tudo, triste e feliz chorei, e ainda
avisei pra aproveitarem que já já eu fechava a tenda: levem meu sangue enquanto
podem que na sequência tenho encontro marcado com a fogueira e aí acabou tudo. Como
daquela vez que vocês mesmos me queimaram. Não lembram?, não se preocupem que eu
não esqueci: bem lembro de muitos de vocês dançando em volta, ainda que com outras
caras, olhos injetados de sangue e ódio e cegueira. Não amaldiçoei sua
ignorância daquela vez e não será agora, que depois que eu esquecer de tudo, e
me curar, torno a lembrar e essa autoimolação será mais uma estrela em meu
brasão.
Ave Fênix, venho à tona de todos os naufrágios.
Hoje não sei dizer das cantorias nem das danças daquela noite, mas lembro do riso das pessoas girando e de sentir frio glacial enquanto os ventos uivantes da mátria tremiam meu corpo e minhas certezas mesmo a par da caieira.
Mas, agora, de tudo o que mais lembro (e nunca esqueço) foi a cena mais fantástica de todas, talvez da vida: minha avó descalça atravessando o chão coberto de brasas acesas. E mais de uma vez.
Não vi nenhum homem entrar na roda, caminhar no fogo.
E disseram que eu era muito criança pra tentar...
* Tudo verdade. Foi e é e continuará sendo.
* * O primeiro dever de uma sacerdotisa é falar a Verdade.
* * * A Mãe-do-Fogo embala eu.
* * * * 'A quem não é fátuo não é o fato que o fará.'
* * * * *
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